SÃO JOÃO: A TRADIÇÃO DO FORRÓ ESTÁ INDO EMBORA?

As atrações na grade da programação do São João nas cidades do nordeste têm trazido à tona discussões sobre a perda de identidade cultural das tradições das festas e costumes juninos nos últimos anos. Gêneros musicais como o sertanejo universitário, piseiro, arrocha, brega funk e até música eletrônica têm tomado conta da grande maioria das escolhas que compõem as atrações musicais das cidades nordestinas que, por sua vez, investem milhões nestes artistas. Sobre as contratações, os vultosos valores despertaram diversos tipos de reações e indagações, tanto populares, como da classe artística, política, empresarial e ministério público, cada qual com a sua visão.

Na própria opinião popular, podemos encontrar diferentes pensamentos: há aqueles que defendam a todo custo que a grade da programação do São João deve conter somente gêneros como o forró – e seus primos, como o baião, o arrasta-pé, o xote, o xaxado… – sejam eles no estilo pé-de-serra, na formação: zabumba, triângulo e sanfona (acordeão), ou mesmo com banda de acompanhamento. E aí, há diversas variantes entre os grupos, dependendo de sua década de formação, como a temática e história das letras, adição de instrumentos, a exemplo de bateria, baixo, teclado, naipe de metais, além da própria estrutura melódica das músicas, porém, cada qual com a sua preferência popular durante o avanço das gerações.

Vale lembrar que, na década dos anos 1990, as novas bandas de forró que surgiram foram rotuladas, principalmente pelos mais tradicionais, como bandas de forró plastificadas, que traziam letras bastante românticas, característica forte da década, também, no sertanejo e pagode, e havia quem trouxesse a temática das bebidas e raparigas.

O rótulo se deu, não só pela inclusão de instrumentos extras aos que eram tocados no forró, mas até a exclusão de alguns bem característicos como o triângulo e a zabumba. A estética das bandas também era algo bem copioso entre elas: figurinos mais pop, timbres vocais, maneira de cantar, quantidade numerosa de cantores em cima do palco, dançarinos etc.

O termo forró de plástico ou plastificado chegou a ser considerado, então, preconceituoso. De certa forma, uma expressão de revolta, visto pelos mais tradicionais como um movimento contrário às tradições, mas, por outras opiniões, também considerado como um momento revolucionário e de maior notoriedade para o forró, que conquistava uma nova geração. Atualmente, recebe o nome de forró de banda ou forró estilizado, uma maneira trabalhada pelo marketing do mercado para mitigar um rótulo, tido como preconceituoso, e prosseguir nas gerações seguintes.

Por sua vez, não só os artistas precisam lucrar, mas a área empresarial, assim, lotar um ambiente de festa exige artistas em evidência na internet, mesmo sem talento ou com talento duvidoso, porque os números passaram a tomar conta da popularidade. Aliás, números sempre foram objetivados por empresários e artistas, porém, nas décadas passadas, a característica principal para se alcançar este objetivo estava associada a talento e excelência nas produções.

Hoje, a qualidade parece esquecida, entregue a números a qualquer custo, imperando um paiol de mesmices sem identidade, com letras rasas e cada vez mais vulgares, corroboradas ainda, pela assistência de inteligência artificial (I.A.), dispensando cada vez mais a participação de profissionais técnicos, músicos e equipamentos, lacrando a artificialidade do gosto popular sobre o novo produto ofertado como música.

Para que as vultosas receitas cheguem, é preciso trazer ao público a fama dos números, mesmo que elas não falem da seca, do sertanejo, do sertão, do Norte e do Nordeste, do São João, das comidas de milho, das fogueiras, da paixão do  casal de matutos, da Mariazinha… mesmo que elas nem falem da temática junina e, assim, a tradição passa a participar como carona ao invés de ser a protagonista, mesmo que resistente. E o público assina embaixo ao lotar os shows dos famosos forasteiros.

O Ministério Público da Bahia, por exemplo, passa a fixar diretrizes para o teto dos gastos com artistas com base nos orçamentos cobrados por estes em 2025 e, segundo alguns encontros de prefeitos, por expressarem insatisfação com sobre os altos valores cobrados em shows.

O MP pronuncia, então, não ser esta uma forma de desvalorizar ou direcionada a determinados artistas, mas de prestação de contas em relação ao desproporcional percentual de aumento precificado de um ano para o outro.

Podemos entender, também, que é uma forma de estar de olhos atentos a coibir superfaturamentos que possam beneficiar, supostamente, de forma ilícita, A ou B, e nos princípios constitucionais de economicidade, transparência e  responsabilidade fiscal. Vale mencionar que Governo Federal, inclusive, tem uma página para se verificar a legalidade das contratações em:

https://www.gov.br/pncp/pt-br.

Sem entrar no mérito dos valores cobrados pelos escritórios artísticos nem sobre como e quanto cada município investe em cultura para os seus munícipes, o fato é que nenhuma tradição deve morrer nem ser substituída, por isso que sua manutenção deve vir de berço, repassada às novas gerações desde criança, não só de boca, contando histórias, mas vivenciadas, fortalecendo as raízes e criando memórias.

Por Dayvis Nascimento

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